terça-feira, 16 de junho de 2015

 
DÁDIVA
Czeslaw Milosz

Um dia tão feliz.
A névoa baixou cedo, eu trabalhava no jardim.
Os colibris se demoravam sobre a flor de madressilva.
Não havia coisa na terra que eu quisesse possuir.
Não conhecia ninguém que valesse a pena invejar.
O que aconteceu de mau, esqueci.
Não tinha vergonha ao pensar que fui quem sou.
Não sentia no corpo nenhuma dor.
Me endireitando, vi o mar azul e velas.

Czeslaw Milosz




Poeta polonês (1911-2004) foi um homem com uma história pessoal marcada pelas reviravoltas políticas do século XX. 

Dizia ele: “Sou um poeta da realidade. Digo que a terra não é um eco, nem o homem um fantasma.”

Católico — como a maioria dos poloneses, Milosz declarou certa vez ao jornal The Washington Post que era “um grande partidário da esperança humana”.

Senhoras e senhores, um pouco da poesia modernista de Czeslaw Milosz.

NÃO MAIS

Preciso contar um dia como mudei

Minha opinião sobre a poesia e por que
Me considero hoje um dos muitos 
Mercadores e artesãos do Império do Japão
Compondo versos sobre a floração da cerejeira,
Sobre crisântemos e a lua cheia.

Se eu pudesse descrever as cortesãs
De Veneza, como incitam com uma vareta o
 pavão no pátio
E desfolhar do tecido sedoso, da cinta nacarina
Os seios pesados, a marca
Avermelhada no ventre onde o vestido se
 abotoa,
Ao menos assim como as viu o dono das
 galeotas
Arribadas àquela manhã carregando ouro;
E se ao mesmo tempo pudesse encerrar seus
pobres ossos
No cemitério, onde o mar oleoso lambe 
 o portão,
Em palavras mais duráveis que o derradeiro
 pente
Que entre carcomas sob a lápide, só, espera 
 pela luz
Não duvidaria. Da resistência da matéria
O que se retém? Nada, quando muito o belo.
Então devem nos bastar as flores da cerejeira
E os crisântemos e a lua cheia.


domingo, 12 de outubro de 2014



Não sei...
se a vida é curta ou longa demais pra nós,
Mas sei que nada do que vivemos tem sentido, 
se não tocamos o coração das pessoas.
Muitas vezes basta ser:
Colo que acolhe,
Braço que envolve,
Palavra que conforta,
Silêncio que respeita,
Alegria que contagia,
Lágrima que corre,
Olhar que acaricia,
Desejo que sacia,
Amor que promove.
E isso não é coisa de outro mundo,
é o que dá sentido à vida.
É o que faz com que ela não seja nem curta,
nem longa demais,
Mas que seja intensa,
verdadeira,
pura...
Enquanto durar.

(Cora Coralina)

sábado, 11 de outubro de 2014

COMO MORREM OS AMORES



Os amores morrem de inanição, 
se não há alimento.
Os amores morrem de decepção, 
se não há sobriedade.
Os amores morrem de ciúme, 
se lhes falta alento.
Os amores morrem de quietude,
se não há cumplicidade. 
Os amores morrem de tédio,
se lhes falta motivação.
Os amores morrem de egoísmo,
quando se ama em solidão.
Os amores morrem cedo,
quando falta compreensão.
Os amores morrem queimados,
no calor de uma discussão. 
Os amores morrem sufocados pela mágoa acumulada.
Os amores morrem afogados no mar das mentiras criadas.
Os amores morrem doentes,
quando somos intransigentes.
Os amores morrem dormindo,
se a paixão vai se diluindo. 
Os amores morrem...
porque nós os matamos!
Os amores morrem,
se os sentimentos ocultamos.
Os amores morrem,
porque não os vivemos.
Os amores morrem e, 
morrendo o amor,
nós é que morremos. 

É, MORREM ASSASSINADOS PELO DESAMOR...


AMOR E SEU TEMPO



Amor é privilégio de maduros
estendidos na mais estreita cama,
que se torna a mais larga e mais relvosa,
roçando, em cada poro, o céu do corpo.
É isto, amor:
o ganho não previsto,
o prêmio subterrâneo e coruscante,
leitura de relâmpago cifrado,
que, decifrado,
nada mais existe
valendo a pena e o preço do terrestre,
salvo o minuto de ouro no relógio minúsculo,
vibrando no crepúsculo.
Amor é o que se aprende no limite,
depois de se arquivar toda a ciência herdada, ouvida.
Amor começa tarde.

(Carlos Drummond de Andrade)





Maravilhoso manuscrito...maravilhoso Drummond!





 


Nada melhor que reunir amigos e sorver cada gota de poesia que brota da alma.