quarta-feira, 12 de agosto de 2015


Agora, vou falar de flores...
...e poesia.

CONFISSÃO
(Mario Quintana)

Que esta minha paz e este meu amado silêncio
Não iludam a ninguém
Não é a paz de uma cidade bombardeada e deserta
Nem tampouco a paz compulsória dos cemitérios
Acho-me relativamente feliz
Porque nada de exterior me acontece...
Mas,
Em mim, na minha alma,
Pressinto que vou ter um terremoto!

O que me amofina 
é saber que você levantou voo,
alçou novos rumos
e esqueceu aqueles que ficaram em terra,
ansiosos por seu retorno.
Você retornou sim,
mas foi abduzida
pela contemplação dos seus olhos.
Embevecidos pelo novo,
esqueceram o que de fato importa.
O novo, um dia torna-se velho;
a rotina torna-se enfadonha,
aí, os olhos param de brilhar.
E como uma ave triste
de canto melancólico
observa tudo que ficou para trás,
irrecuperável,
valioso.
O tempo é cruel...
Não volta jamais!

(Sandra Ferreira)

CONTO DE FADAS
(Florbela Espanca)

Eu trago-te nas mãos o esquecimento
Das horas más que tens vivido, Amor!
E para as tuas chagas o unguento
Com que sarei a minha própria dor.

Os meus gestos são ondas de Sorrento...
Trago no nome as letras duma flor...
Foi dos meus olhos garços que um pintor
Tirou a luz para pintar o vento...

Dou-te o que tenho: o astro que dormita,
O manto dos crepúsculos da tarde,
O sol que é de oiro, a onda que palpita.

Dou-te, comigo, o mundo que Deus fez!
Eu sou Aquela de quem tens saudade,
A princesa de conto: "Era uma vez..."

O perfume 
Invadia os meus sentidos.
Trazido por uma brisa suave.
A cerca de madeira
Revelava...
Lindas rosas amarelas.
Fiquei inebriada
Diante desta
Singela e perfumada imagem.

Boa noite pessoas lindas!

A pintora e escritora Luiza Caetano, nasceu na aldeia de Venda do Pinheiro, em Mafra, perto de Lisboa, em 1946.
Formou-se em Filosofia e começou a escrever poemas e contos, publicando em jornais.
Sua carreira artística teve início em 1987, quando expôs na Galeria do Casino Estoril, Portugal e a partir daí os convites para apresentar os seus trabalhos em Portugal e no exterior não pararam.
O gosto pela pintura e o prazer de viajar, fez com que tivesse muitos contatos com poetas e artistas dos países que visitava.
Participou de muitas exposições em vários países, e sua obra tem-lhe proporcionado diversas distinções e menções honrosas.
É uma apaixonada pela arte!
Ernane Cortat a define como "Escultora de palavras, desenha formas e contornos de uma beleza única, que só ela sabe exprimir."

Senhoras e senhores, a arte de Luiza Caetano, exprimida em tela e versos:

"UM AMOR COM AMOR"

Quero
uma casa sem portas,
Um espaço sem vento!
Um amor com amor!

Quero,
Um rumor de água
por perto,
iluminando o teu corpo
aberto como um barco.

Quero
um cais ou um porto
onde as gaivotas
se percam
e
as andorinhas
secretamente
nos avisem
que a Primavera chegou.

Quero ser o teu amigo.
Nem demais e nem de menos. 
Nem tão longe e nem tão perto. 
Na medida mais precisa que eu puder. 
Mas amar-te sem medida e ficar na tua vida, 
Da maneira mais discreta que eu souber.
Sem tirar-te a liberdade,
Sem jamais te sufocar.
Sem forçar tua vontade.
Sem falar, quando for hora de calar.
E sem calar, quando for hora de falar.
Nem ausente, nem presente por demais.
Simplesmente, calmamente, ser-te paz.
É bonito ser amigo,
Mas confesso é tão difícil aprender!
E por isso eu te suplico paciência.
Vou encher este teu rosto de lembranças,
Dá-me tempo, de acertar nossas distâncias...

(Fernando Pessoa)